Projeto de extensão, quando aprender também é cuidar?

Quem ensina quem, afinal? E digo mais, quando o conhecimento sai da sala de aula e encontra a vida real, ele muda de forma ou revela sua forma mais verdadeira?

Foi com essa provocação que a CASA NEON CUNHA recebeu estagiários de Psicologia das instituições USCS e ANHANGUERA, estudantes do 4º, 6º e 8º semestre, em uma experiência que ultrapassa o currículo formal e se instala no campo da troca, da escuta e da construção coletiva de saberes. Aqui, não há apenas aplicação de teorias: há encontro. E é no encontro que o conhecimento deixa de ser abstrato para se tornar ético e profundamente humano.

A formação em Psicologia não pode se restringir à técnica. Como aponta Paulo Freire, não há saber mais ou saber menos, mas saberes diferentes que se encontram e se transformam no diálogo [1].
Nesse sentido, a presença dos estagiários não representa apenas uma etapa de formação profissional, mas um processo de construção compartilhada de conhecimento, em que aprendem tanto quanto contribuem. A prática em contextos de acolhimento amplia a compreensão sobre sofrimento psíquico, vulnerabilidade social e, sobretudo, sobre a potência do cuidado.

Donald Schön, ao discutir o “profissional reflexivo”, reforça que é na prática, especialmente diante de situações complexas e reais, que o conhecimento se reorganiza e se aprofunda [2]. E não há nada mais real do que a vida em sua forma concreta, atravessada por desigualdades, resistências e, também, por gestos de solidariedade.

Mas é preciso dizer com todas as letras: essa troca não acontece no vazio. Ela se sustenta em condições materiais. E é aqui que entra um ponto fundamental e político da nossa prática, o estágio não remunerado vinculado à doação de 24 kits de higiene.

Pode parecer simples listar os itens:

  • Shampoo
  • Condicionador
  • Lâmina de barbear
  • Hidratante corporal
  • Hidratante capilar
  • Desodorante
  • Pasta de dente
  • Escova de dente

 

Mas o que está em jogo não é apenas uma lista. É o acesso à dignidade.

A filósofa Martha Nussbaum, ao desenvolver a abordagem das capacidades, afirma que viver com dignidade implica ter condições mínimas para o florescimento humano, incluindo o cuidado com o próprio corpo [3]. No entanto, aquilo que para muitos é rotina, como tomar um banho diário, escovar os dentes, usar um desodorante, para outros ainda é privilégio.

Sim, privilégio, em um país marcado por profundas desigualdades sociais, o acesso à higiene pessoal não pode ser naturalizado como algo universal. Como aponta o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a privação de condições básicas impacta diretamente a saúde, a autoestima e a participação social dos indivíduos [4]. A ausência de itens de higiene não é apenas uma questão de conforto, mas de exclusão.

Por isso, quando vinculamos o estágio à doação de kits de higiene, não estamos apenas organizando uma contrapartida. Estamos afirmando um posicionamento de que o cuidado precisa ser concreto.
Não basta escutar, é preciso agir. Não basta aprender, é preciso aplicar.

Essa perspectiva também dialoga com o campo da Saúde Coletiva, que entende o cuidado como um fenômeno ampliado, atravessado por determinantes sociais. Autores como Cecília Donnangelo já apontavam que a saúde não pode ser dissociada das condições de vida [5]. E higiene é condição básica de vida.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que essa troca não diminui o valor do estágio, ao contrário, o potencializa. Os estudantes que passam pela CASA NEON CUNHA não apenas acumulam horas obrigatórias, eles vivenciam uma formação ética, crítica e sensível às realidades sociais. Aprendem que a Psicologia não se faz apenas no consultório, mas também nos territórios, nas relações e nas urgências do cotidiano.

E nós, enquanto instituição de acolhimento, também aprendemos. Aprendemos com o olhar fresco de quem está em formação, com as perguntas que desestabilizam certezas, com a energia de quem ainda acredita na transformação.

No fim das contas, talvez a pergunta inicial encontre uma resposta possível: ninguém ensina sozinho, ninguém aprende sozinho. O conhecimento, quando atravessado pelo cuidado e pela responsabilidade social, deixa de ser propriedade e passa a ser construção coletiva.
E se há algo que essa experiência nos ensina, é que cuidar também é um ato político.

 

Referências

  • FREIRE, Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
  • SCHÖN, Donald A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2000.
  • NUSSBAUM, Martha Creating Capabilities: The Human Development Approach. Cambridge: Harvard University Press, 2011.
  • PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Relatório de Desenvolvimento Humano. Nova York: PNUD, 2020.
    DONNANGELO, Maria Cecília Saúde e Sociedade. São Paulo: Duas Cidades, 1976.

 

Phelipe Baltazar
Sou biólogo movido pela educação como ferramenta de transformação social. Com experiência no mercado educacional, construi uma trajetória conectando conhecimento, cuidado e prática no dia a dia. Atualmente, atuo como coordenador administrativo na Casa Neon Cunha, onde contribuo para a organização e fortalecimento de um espaço voltado ao acolhimento e à promoção de direitos. Aquariano com ascendente em Áries, carrego a combinação perfeita entre idealismo e ação, acredito em mudança coletiva. Entre processos, projetos e pessoas, sigo construindo caminhos mais sustentáveis, inclusivos e cheios de propósito.