Quando a dúvida vem do conforto, a resposta vem da prática

Enquanto nas redes, uma “querida”, dentro do conforto da sua casa, e é importante reforçar, dentro DO CONFORTO da sua casa, questiona se o nosso trabalho é mesmo real, do lado de cá a resposta não vem em comentário. Ela vem em mudança real.

Na prática, estamos oferecendo o que antes não existia para muitas dessas pessoas. Um teto. Segurança alimentar. Atendimento psicossocial. Encaminhamento para entrevistas, atendimento jurídico e cursos profissionalizantes. Mas não só isso. Mais do que o mínimo, estamos falando de transformação concreta, de reconstrução de dignidade e de retorno à autonomia.

O nosso público vem de um processo contínuo de exclusão. Um processo que começa no rompimento familiar, atravessa a evasão escolar e se consolida na negação sistemática de acesso ao mercado de trabalho formal.

Do conforto da sua casa, é fácil questionar, fácil deslegitimar, quando todos os dias lutamos para manter o básico: acesso a um banho, escovar os dentes e muitas outras tarefas que, para muitos, são comuns, mas que, para a população em vulnerabilidade, durante muito tempo, foram uma realidade distante.

Paulo Araujo – Presidente da Casa Neon Cunha

Uma vez superados os desafios que fazem parte da sobrevivência básica, vem a próxima barreira: o mercado de trabalho não aceita pessoas trans.

É fácil falar que é falta de vontade, que é “só ir trabalhar”, quando, na prática, vivenciamos pessoas retornando de entrevistas desoladas pelas violências que sofreram da mesma sociedade que sustenta essa inverdade de que “quem quer trabalhar, trabalha”.

Quando a crítica só existe no discurso, eu me pergunto: o que você, que está criticando, faz para contribuir com uma sociedade mais justa?

Existe uma tendência perigosa de reduzir iniciativas como essa ao campo da “ajuda”, como se estivéssemos falando de assistência pontual, caridade ou ações isoladas.

Na capa, mostramos um exemplo prático: uma das pessoas que passou pela Casa Neon hoje está em um emprego formal.

Isso significa mais do que renda. Significa retomada de autonomia, reconstrução de projeto de vida e possibilidade de futuro. Mas é importante dizer: não é um caso isolado.

Desde o início do projeto, são 22 pessoas que caminharam nesse sentido.

  • 22 nomes.
    22 histórias.
    22 trajetórias que atravessaram a exclusão e encontraram, aqui, um ponto de reconstrução.

E nenhuma dessas histórias pode ser lida como exceção. Elas são evidência.

Quando alguém questiona se esse trabalho é real, não está apenas colocando em dúvida uma iniciativa. Está revelando algo mais profundo.

Revela o quanto ainda é difícil, para parte da sociedade, reconhecer que determinadas vidas foram sistematicamente excluídas. Revela o quanto ainda se sustenta a ideia de que quem está à margem está ali por escolha. E, principalmente, revela o desconforto diante de experiências que comprovam o contrário.

Porque, quando uma pessoa acessa um emprego formal depois de ter sido empurrada para fora de todas as estruturas, conseguimos enfrentar uma lógica de sistema que é excludente.

Não é sobre convencer. É sobre responsabilizar.

A Casa Neon não existe para convencer quem não quer ver. Ela existe para agir onde o Estado não chegou, onde a política pública falhou e onde a sociedade escolheu se omitir. Existe para garantir que a dignidade não seja um privilégio.

A pergunta, portanto, não é mais sobre a validade do trabalho realizado.
A pergunta é outra: quem, diante disso, está disposto a assumir o papel de agente de transformação?

Se você está se perguntando como pode fazer isso, eu te ajudo.

Apoie iniciativas como a Casa Neon Cunha. Seja um  doador recorrente. Quando encontrar alguém em situação de vulnerabilidade, ajude. Em vez de jogar fora roupas em bom estado, doe. Participe de ações de voluntariado.

A transformação começa por cada pessoa disposta a fazer a diferença.

Pri Schoof
Comunicadora e ativista. Atua com comunicação digital e mobilização social, integrando a diretoria da Casa Neon Cunha e da Parada LGBTQIA+ de São Bernardo do Campo. “Acredito que, através da comunicação estratégica e do posicionamento, podemos abrir portas que historicamente foram fechadas para a nossa população.”