Por Phelipe Baltazar
Quem ocupa o poder hoje te representa ou apenas administra o seu silêncio? É uma pergunta retórica, eu sei, mas precisamos encarar o espelho. Em algum momento da nossa história democrática, passamos a confundir presença com representação. E, sejamos sinceros, sentar à mesa não é o mesmo que ter direito ao banquete.
A política, assim como os relacionamentos, só funciona quando entendemos o papel de cada um. O vereador deveria ser o nosso elo mais íntimo com o poder público; ele é o “fala que eu te escuto” institucionalizado, o síndico da nossa cidade que deveria traduzir o caos das ruas em ordem legislativa. Mas, ao olharmos para o Grande ABC, esse território pulsante e operário, os números revelam que o motor dessa máquina está operando com peças repetidas, basicamente uma anatomia do desequilíbrio.
No ABC Paulista, a história é contada em 150 cadeiras. E a matemática da exclusão é precisa:
Tabela 1 – Composição das Câmaras Municipais (2025-2028)
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Apenas 14 mulheres. Menos de 10%. A ausência de corpos trans e travestis não é apenas um dado estatístico; é um sintoma. Se a política é o motor da sociedade, a representatividade é o combustível. Sem ela, a máquina ignora a maioria da população e segue um padrão confortável demais de tratar o poder como “coisa de homem”, mesmo ironicamente, um substantivo masculino para uma palavra, política, que é feminina.
Como observou Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher: torna-se.” [1].
No Brasil, parece que ainda estamos tentando, com um esforço hercúleo, permitir que mulheres se “tornem” poder, mas esse teto de vidro é blindado.
Se ampliarmos o olhar, o cenário não melhora; ele apenas ganha escalas maiores. Na ALESP, 73,4% das cadeiras pertencem a homens.
No Senado, eles são 80,3%. E, no topo da pirâmide, o Supremo Tribunal Federal (STF) nos entrega a estatística mais amarga, reparem, em 135 anos de história moderna, levamos 110 para ver a primeira mulher, Ellen Gracie, ocupar uma vaga. Desde então, apenas Rosa Weber e Cármen Lúcia se juntaram a esse seleto e solitário grupo.
Atualmente, temos uma única ministra, Cármen Lúcia, revogando espaço sobre corpos, vidas e direitos de milhões de brasileiras, cercada por dez homens. Hannah Arendt escreveu que “a política trata da convivência entre diferentes” [2]. Mas como conviver com o diferente se ele não está sequer na sala?
A questão aqui não é apenas ocupar espaços, é redefinir. Quando uma mulher, especialmente uma mulher trans ou uma pessoa LGBTQIA+, entra na política, ela não leva apenas um CPF, ela carrega pautas que foram sistematicamente deixadas em outros cômodos da história.
No fim, resta a pergunta que ecoa em cada sessão legislativa, quem fala por você hoje realmente entende o que você vive? Representação não é sobre estatística, é sobre espelho. E, convenhamos, ainda estamos muito longe de nos reconhecer na antiga política.
Referências Bibliográficas
[1] BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. [2] ARENDT, Hannah. O que é Política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2017.
2019. [2] ARENDT, Hannah. O que é Política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2017.






